Archive for the ‘setembro’ Category

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Mutirão Carcerário concede benefícios

setembro 30, 2009

Por Ivna Girão

Jornal O Estado – 30 de setembro de 2009

Segundo o CNJ, o Estado é o que mais ofereceu alvarás no Brasil

O sorriso no rosto demonstrava a alegria de quem ia começar uma vida nova. Como atividade do Mutirão Carcerário, aconteceu ontem à tarde uma audiência coletiva que concedeu alvarás de soltura para mais 31 detentos que estavam cumprindo pena. Entre os benefícios estavam o regime aberto, o trabalho externo e a extinção de pena. Trazendo pertences pessoais nas mãos e uma leveza no coração, a ex-presidiária Flávia (nome fictício), 27, não conteve as lágrimas ao abraçar a irmã que ela não via há meses. “Vou recomeçar minha vida. Com o apoio do Mutirão, vou arranjar um emprego e agora vou olhar só para frente”, disse a jovem que trazia nas mãos um ventilador, colchão e sacolas de roupas, lembranças dos quase três anos que esteve presa por tentativa de assalto.

Com um total de 5.447 processos avaliados e 1.887 benefícios concedidos, o Mutirão já libertou 1.407 presos. Segundo o juiz federal Marcelo Lobão, representante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Ceará é o estado que mais ofereceu alvarás. O juiz acredita que até o dia 15 de outubro devem estar concluídos os trabalhos. “Não estamos fazendo nenhum favor, as concessões são um direito. Não fazemos a soltura pura e simplesmente, nós estamos criando uma rede social que garantirá emprego e dignidade para o egresso”, frisou o juiz federal. Segundo Marcelo Lobão, o direito ao trabalho externo foi concedido aos detentos que estão no regime semi-aberto, cuja legislação, permite que o apenado trabalhe de segunda a sexta-feira, tenha o descanso domiciliar e volte a se recolher ao presídio somente nos finais de semana e feriados. Os demais re-educandos foram beneficiados com o indulto, que é um ato do Poder Público que extingue o cumprimento da condenação imposta ao sentenciado.

Como parte do programa ‘Liberdade com Cidadania’, cada um que ia ganhando seus benefícios já saia do Fórum com um encaminhamento profissional para cursos e capacitações nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) da Prefeitura de Fortaleza. “Esperamos que o retorno dos presos às famílias se dê de forma amorosa e tranquila. Vocês têm compromissos com seus familiares e com um novo futuro profissional que vão construir”, aconselhou Luísa Cristina, coordenadora da equipe de servidores do Mutirão Carcerário, a cada um dos 31 presentes na Audiência Coletiva. Ela explicou ainda que o objetivo é propiciar uma rede de atendimento e suporte ao egresso e seus familiares.

Orgulhoso de ver a filha, a mãe e o irmão presentes, Marcos (nome fictício), 31, ganhou o benefício do trabalho externo. “Minha alegria é poder sonhar com o futuro de novo e sair daquele inferno que era a prisão”, disse o egresso. Com o alvará em mãos, ele não cansava de dizer que o seu único desejo era poder ter liberdade para terminar a faculdade de enfermagem. Abraçado com a filha pequena, ele sabia que, apesar da soltura, teria algumas condições a cumprir como não frequentar bares, não consumir bebidas alcoólicas e se recolher ao presídio nos finais de semana e feriados. “O mais importante para a gente é que eles cumpram as exigências e não voltem a reincidir”, disse o juiz Epitácio Quezado Cruz Júnior. Apesar de ganharem benefícios diferentes, todos os 31 tiveram a mesma ação ao fim da Audiência: correr para a casa para poderem dormir no aconchego dos seus lares. “Eu nem contei para ninguém que estava livre. Preferi fazer a surpresa. Vou poder jantar com a família reunida”, disse sorrindo Flávia.

(http://www.oestadoce.com.br/?acao=noticias&subacao=ler_noticia&cadernoID=34&noticiaID=17718)

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Familiares criticam Mutirão Carcerário

setembro 30, 2009

Por Ivna Girão

Jornal O Estado – 25 de setembro de 2009

Projeto quer oferecer qualificação profissional aos egressos no Ceará

A mãe se arrumou, passou perfume nos dois filhos e foi ao Fórum Clóvis Beviláqua receber o marido que iria, segundo ela, ganhar o benefício da liberdade através do Mutirão Carcerário. Minutos depois, já com os olhos chorosos, Miria Pereira gritava pelos corredores: seu marido não ia mais ser libertado como haviam prometido. Vinda de Pacajus, a senhora chamava o Mutirão de ‘mentirão’. Com papelada de processos nas mãos, uma das coordenadoras do Projeto, Roberlene Rodrigues, mandava a mulher parar de chorar e avisava que o pedido de alvará de soltura do seu marido tinha sido realmente indeferido e que nada mais podia ser feito. Miria Pereira, no entanto, continuava a dizer que a Justiça tinha dado sua liberdade. Depois de muita confusão e bate-boca, uma boa nova chegou: o esposo de Miria ganhara a semiliberdade e tudo não passara de um mal-entendido. “Foi só uma desorganização nossa”, tentou se explicar a coordenadora. Numa tarde de plantão no Fórum muitas foram as histórias de desrespeito aos familiares de presos.

Banco de dados

Banco de dados

Explicando que o Mutirão Carcerário gera muitas expectativas nas famílias dos presos, o juiz federal Marcelo Lobão, representante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), frisou que muitas pessoas vêm ao Fórum todos os dias apurar informações. “Tem-se uma expectativa que todos vão ser soltos, mas não é assim. Estamos tentando consultar com cuidado os mais de 14 mil processos existentes. Às vezes acontecem confusões como essas”, frisou o juiz. Fazendo plantão na porta do Mutirão, Aparecida Guimarães não acredita que todos vão ser julgados. Ela disse que seu esposo foi condenado a quatro anos de prisão, mas, segundo ela, já fazem mais de seis anos que ele está detido e nada foi feito ainda. “Eu sempre venho aqui e o povo só me enrola. Só por que a gente é pobre não temos direito a nada, é?”, questionou a mulher, que juntamente com Miria Pereira, não cansavam de reclamar do descaso com seus maridos.

PROJETO LIBERDADE CIDADÃ

Reconhecendo que o papel do Mutirão Carcerário não é somente o de revisar os processos, o juiz Marcelo Lobão disse que, por trás de cada prisão, há inúmeros problemas sociais. Segundo ele, um dos objetivos do projeto é dar assistência beneficiária e social às esposas e filhos dos detidos. Lançado na tarde de ontem, uma nova ação promete ajudar aqueles que, liberados pelo Mutirão Carcerário, tentarão construir um futuro longe das grandes. O projeto ‘Liberdade com Cidadania’ quer avançar na proposta de ressocialização dos egressos e dar emprego e capacitação profissionais aos mais de 1.357 que, até ontem, ganharam o direito à semiliberdade. Dezenas de empresários e gestores públicos formam agora um Conselho Gestor para discutir, articular e desenvolver ações que possibilitem o acesso de presos ao sistema de proteção social.

Oferecendo seis cursos de capacitação para um total de 150 presos, a coordenadora do programa ‘Criando Oportunidades’ da Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS), Márcia Mororó, frisou a necessidade de se dar uma nova chance àqueles que já pagaram pelos seus erros. “Vamos capacitá-los para trabalhar principalmente na área metalúrgica e voltarem a ter dignidade”, frisou a coordenadora. Representante de uma empresa de metais, Deyse Maia fica orgulhosa em poder oferecer trabalho aos egressos. “A gente já vem trabalhando com adolescentes em conflito com a lei e agora com presidiários”, disse a empresária. Uma nova reunião do Conselho Gestor do programa ‘Liberdade com Cidadania’ acontecerá no próximo dia 8, quando outros grupos apresentarão suas disponibilidades de vagas. “Queremos que a sociedade se comprometa na resolução desse problema. Eles têm direito à capacitação e ao trabalho quando saem das prisões”, concluiu o juiz.

(http://www.oestadoce.com.br/index.php?acao=noticias&subacao=ler_noticia&cadernoID=22&noticiaID=17558)

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Cines pornôs mantêm rotina no Centro de Fortaleza

setembro 30, 2009

Por Ivna Girão

Jornal O Estado – 14 de setembro de 2009

No intervalo do almoço ou no fim do expediente, trabalhadores fazem visitinhas aos cinemas

“A desculpa é assistir o filme pornô, mas o que rolar, rolou”, declarou Marcos (nome fictício), 33, que frequenta semanalmente as tais ‘salas escuras’. Nos cines pornôs do Centro de Fortaleza se faz de tudo um pouco: há quem saia mais cedo do emprego para curtir o restante da tarde ao lado de um parceiro casual e há quem queira se distrair na troca entre um turno e outro de trabalho. Mesmo escondidos sob vidros fumês e sem grandes placas de sinalização, dos locais sui generis fazem parte da rotina da cidade e se acumulam em esquinas do Centro. No entorno da Praça Murilo Borges, encontramos mais de 20 Cines que recebem homens a procura de um momento de prazer e distração. Mesmo com a liberação sexual na internet e nas locadoras, a procura pelas ‘salas escuras’ ainda é grande, frisou Betão, proprietário de uma casa de exibição. Segundo ele, cerca de 80 pessoas diariamente dão audiência aos mais de 12 filmes ‘adultos’ exibidos na semana. Assim com a proposta, o precinho também é encantador, RS 3,00 reais por horas de prazer, sozinho ou acompanhado nas cabines privês.

Com a tarde da sexta-feira de folga, Fernando (nome fictício), 24, já tinha destino certo para se despedir da tensão de uma semana inteira de trabalho. Com o ticket que dá acesso ao prazer cinematográfico, o jovem conheceu seu atual namorado em uma sessão de filme pornô no Cine Orion. Mesmo desacompanhado do parceiro, ele assumiu ir às salas para relaxar, ter encontros casuais e curtir sua sexualidade. “Eu venho sem muito compromisso e me escondo aqui para fazer o que tiver vontade. Tem dia que fico só assistindo o filme e curtindo o momento e tem outros dias que eu aproveito para ter um lance com alguém que me interessar”, frisou o trabalhador. Sem vergonha de frequentar o local, Fernando reclamou do preconceito e da hipocrisia da sociedade que quer acabar e censurar a pornografia. “Assim como cuido da minha saúde tomando remédios, cuido da minha sexualidade vindo aqui e tento vive-la de modo saudável e com liberdade para ser feliz. Eu venho pro Cine me divertir um pouco”, frisou. O jovem lamentou a falta de asseio e de higiene de muitos estabelecimentos do Centro.

Tiago Stille

Tiago Stille

Apressado, o trabalhador Marcos tenta aproveitar cada minuto dentro da ‘sala escura’. Com uma vida agitada, a ida rapidinha ao Cine é rotina. Dizendo-se casado, ele esconde da mulher esse hobby sexual e fica triste por ela não compartilhar com ele algumas fantasias. Muito constrangido, ele assumiu que não tem coragem de assistir filmes pornôs com a mulher em casa por achar que ela vai julgá-lo por safadeza. “Eu queria poder viver algumas aventuras com minha esposa, mas as mulheres em geral são muito reprimidas e não se libertam. Eu venho pro Cine umas três vezes na semana para extravasar e assistir aos lançamentos dos filmes”, disse Marcos que afirmou não topar lances festivos e casuais com outros homens. O proprietário do Cine Freedom declarou que o seu público é prioritariamente de homens e que quase não há mulheres presentes no escurinho dos cines.

ENTRE A VERGONHA E A CURIOSIDADE

Lamentando que mulheres não frequentem as ‘salas escuras’, a proprietária de um salão de beleza em frente a um Cine, Elizabeth Barbosa, observa diariamente o movimento e confirma que há todo tipo de homem entrando e saindo. “Tem uns mais desconfiados, tem outros que não estão nem aí pra ninguém. Tem muito homem casado que está insatisfeito com a esposa e vem curtir sem ela. Eu queria que tivesse uns cines mais arrumadinhos, com mais higiene e segurança só para a gente poder ir e se divertir um pouquinho também. Quem não gosta de um pouquinho de sacanagem na vida?”, perguntou a cabeleireira que ora sentia vergonha e ora ria com o assunto caliente.

Em pleno fervilhar da tarde de uma sexta-feira, o entra e sai de frequentadores do Cine Betão é grande. Escrito com letras grandes, a publicidade do cine informa a exibição diária de mais de oito filmes pornôs por dia. O Betão, dono do Cine, disse que o domingo é o dia mais agitado. Ele afirmou ainda que os números de casas têm crescido na mesma proporção em que aumenta o descaso e a invisibilidade do Centro da cidade. “Tem mais de 20 Cines só ao redor da Praça do BNB no Centro. O comercio tem crescido, mesmo com tanto acesso a filmes pornôs na televisão e na internet. Recentemente, abriram duas novas casas perto da avenida Duques de Caxias. As pessoas vem devido à privacidade e possibilidade de encontros. É um lazer e um modo de sociabilidade de quem trabalha no Centro da cidade. Porém, não há um público definido”, disse Betão. Com o sucesso da casa, ele tem cedido o lugar para festinhas. No último sábado à noite, o Cine lotou.

Em uma conversa por telefone com o professor da UFC e antropólogo, Alexandre Vale, pudemos entender um pouco do histórico dos Cines no Centro. Ele afirmou ter visto o crescimento das ‘salas escuras’ devido à derrocada dos cinemas tradicionais como o Cine Diogo e o São Luiz. Com o sucateamento do Centro e a liberação dos costumes, esses locais de prazer e relaxamento funcionam como válvulas de escape e ganham frequentadores assíduos. “Depois que a elite deixou de frequentar o Centro, esses antigos cinemas viraram ‘elefantes brancos’. Tinha-se que dar alguma ocupação para eles e os Cines Pornôs viraram práticas de resistência e de sobrevivência. A pornografia vem para saciar um desejo que não quer se calar”, disse o antropólogo. O professor contou que “antes os filmes não eram mostrados desta mesma maneira. Eram exibidos em películas e que hoje são mostrados em vídeo. O cine pornô é um comércio sexual como qualquer outro, tem pessoas que gostam e as que não gostam. Não é uma simples questão de ser bom ou mal”, frisou o antropólogo.

Alexandre Vale estudou o tema dos cinemas pornôs em sua dissertação de mestrado, que virou o livro No Escurinho do Cinema: Cenas de um público implícito (Editora Annablume, 2000). Sobre a primeira ‘sala escura’ em Fortaleza, ele apresenta o Cine Jangada como pioneiro que, com o afrouxamento da censura, e com o aparecimento da pornografia, ele começa intercalando filme de Kung Fu com filme pornô e vai se constituir como uma das primeiras salas de filme pornô entre 1970 e 1980. Com outra versão, O Novo Cine Jangada é famoso no Centro e abriu suas portas em dezembro de 2003.

HISTÓRIA DO CINEMA PORNOGRÁFICO

– Em 1908 é rodado em Paris La Bonne Auberge, protagonizado por prostitutas, que interpretavam elas mesmas.
– Em 1915, o primeiro filme pornô norte-americano: A Free Ride.
– Em 1972, é lançado Garganta Profunda, que custou US$ 24 mil e foi rodado em míseros seis dias. Na mesma década estréaram O Diabo na Carne de Miss Jones e Atrás da Porta Verde, outros clássicos do ‘‘pornô-chique’’. Sem contar com o japonês O Império dos Sentidos, esse um verdadeiro cult, filmado em 1975.
– Década de 1980: a Era de Ouro do pornô escrachado. Atrizes como Traci Lords, Cicciolina, Kasha, Debbie Diamond e Ginger Lynn são eleitas musas do período. Em 1985 é produzido a última grande produção da era pré-videocassete: o escatológico New Wave Hookers.
– Década de 1990: as produções para videocassete dominam a indústria pornô.
– Cai a qualidade dos filmes, aumentam os lucros. Destaque para Rocco Siffredi, o italiano de 27cm, considerado o melhor ator pornô da atualidade.
– Em 1998, o cineasta Paul Thomas Anderson filma Prazer sem limites (Boogie Nights), que conta a história do auge e do declínio do cinema pornô nos Estados Unidos.

(http://www.oestadoce.com.br/index.php?acao=noticias&subacao=ler_noticia&cadernoID=22&noticiaID=17056)